ENCANTOS TEUS



Quando o percebido pelo olhar se expressar em palavras,
haverei de descrever duas faces mescladas em destinos.
Direi que em algum lugar se ouvia música que tocava o coração.
Indicarei que o tempo se perdeu, e a preguiça divaga leve.
E que terei direito a tal descanso, que esquecerei o cansaço.
A memória se fará generosa, se abrirá para boas lembranças.
A imaginação se fará fértil e encantará com tantos sonhos.
Alguém raro, jóia preciosa, estrela de meu céu de luzes.
Verei teu nobre perfil vestido por translúcidas nuvens,
e teu corpo entre desnudo e cheio de pudores há de encantar.
Lembranças feminis, um toque delicado, uma voz suave.
Fragrâncias de uma epiderme, brilho de olhar, um sorriso.
Brincarei de saudade, e terei ilusões com o tempo futuro.
Não serei poeta, mas apenas abrigo para surgir a poesia.
Letras livres, versos que foram escritos por puros sentimentos.
Libertos como que o alto voo das águias, como cavalos selvagens.
Na ingenuidade, haverá um tempero de um toque de sensualidade,
pois que a sedução provoca quando a química do corpo se encanta,
pois que o verbo fica versátil quando as energias da alma se cruzam.
E o calor do afeto se fará terno, e a paixão desafiará o amor.
Musa etérea que vaga em trilhas oníricas, corpo de mulher.
Quais linhas divinas te deu o Criador, qual delícia, filha de Eva?
Atenta contra as virtudes que fogem dos desejos, mas é santa,
é anjo do céu, é beleza em flor, pois que deixa ébria a razão.


Gilberto Brandão Marcon
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SERES DA NOITE





Madrugada, perfumes florais,

Silêncio, ouço a folha que cai,

Vento viril beija a brisa feminina.


Gilberto Brandão Marcon

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ÊXTASE



Resta agora apenas uma silhueta,
um perfil de belas curvas.
Uma personagem oculta,
um ser cheio de vida
ocultado pelas sombras.
Atriz principal neste quadro
pintado com tons de sensualidade.
Imagem cheia de silêncio meditativo,
misturada apenas a sons da natureza.
Não existem mecanismos ou engrenagens,
mas uma alma primitiva e bela.
O movimento se faz como que anestesiado,
com uma lentidão agradável.
No cair de uma tarde o sol crepuscular
denuncia os seus últimos raios dourados.
O vermelho da paixão. O alaranjado da vida.
E o azul pacificador da noite que chega.
As rarefeitas nuvens vão ganhando
tonalidades diferentes na transformação do dia.
Antes cheias de cores solares,
agora azuis prateadas pelas emissões lunares.
Por entre os traços de nebulosidade
brilham estrelas que ocultam os seus pendores.
O coração está cheio de uma falsa calma,
enquanto o cérebro preguiçoso relaxa.
Como que numa leve brisa
as idéias vão surgindo,
dando corpo a um poema.
São letras que se acasalam
produzindo uma forma estética
e uma expressão sonora.
Passa o tempo, o escuro da noite
toma conta da abóbada celeste,
ganha profundidade.
Uma expressão de promessa,
um convite ao desejo,
criando a lembrança do olhar feminino.
Olhos de deusa celestial.
E num ínfimo instante se recria
um novo mundo imaginário.


Gilberto Brandão Marcon
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SENSIBILIDADE
Dueto Gilberto Brandão Marcon & Roberta Marcon






Sentir o que os outros não veem,

Ser como os outros não entendem.

Buscar com loucura o que se ama

E encontrar às vezes mais, às vezes menos...

(Roberta)

Duvidar que o que não vê não existe,

Não perceber que, acima do entendimento,

Está a dedicação e a obstinação de cada ato.

E se meu olhar não te vê, nada vejo então.

(Gilberto)

Uma surpresa agradável,

Uma alegria frágil demais para resistir

Quando a mágoa chega,

Mas uma vontade imensa de equilibrar sentimentos.

(Roberta)

Temo o inesperado, desconfio da sorte.

A alegria é como a flor, tão frágil como bela.

E a mágoa que é dor indesejada, mas presente.

Amor não é só acaso, mas também dedicação.

(Gilberto)

Uma criança inocente,

Uma malícia sem maldade.

A certeza de ter razão,

E o defeito de achar que não a tem.

(Roberta)

Não saberia ser inocente,

Pois sinto-me eternamente culpado.

Não teria malícia por ser demais ingênuo.

Não discutiria a razão por ter obstinada teimosia.

(Gilberto)

Necessitar de carinho como da luz e do ar.

Perceber a estética das coisas

E guiar-se por ela,

Tornando-se fútil.

(Roberta)

Não tenho a luz ou ar, apenas a atitude.

Só aprecio a estética da liberdade,

Por ela até renuncio a parte dela mesma.

Franco demais para compartilhar futilidades.

(Gilberto)

Mas uma futilidade que se torna saudável,

Quando observados os valores internos.

Tentar discernir o bem do mal

E ser levada, às vezes, pela dúvida.

(Roberta)

A futilidade nunca é saudável,

Melhor será sempre a verdade,

Mesmo que implique em intensa dor.

Dúvidas eu tenho, mas amo a justiça.

(Gilberto)

Falta de estabilidade

Que traz insegurança e sofrimento.

Ser uma peça inquebrantável

E flexível, como os juncos que se curvam.

(Roberta)

Na instabilidade de mim, a certeza de ti.

Estúpido em atos, mas nunca em coração.

Não cabe a ti o desafio da força, mas a mim.

O que encanta-me é a flexibilidade que não tenho.

(Gilberto)

Juncos que na tempestade tocam o chão,

Mas continuam plantados.

E amam o vento que não conhece

A própria força.

(Roberta)

Não dobro-me ao vento, sou como o carvalho,

Cairei em batalha, talvez inútil, mas será meu destino,

Ama mais enfrentar o vento do que a própria vida.

Talvez faça parte dele, mas atrai-me tua brisa.

(Gilberto)

Gilberto Brandão Marcon

& Roberta Marcon

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Áudio:

http://recantodasletras.uol.com.br/audio.php?cod=22572



PERDOA-ME






Fugiram as cores das flores
do nosso jardim.
Uma névoa espessa,
em tons cinzentos,
encobriu aquela que parecia ser
nossa eterna primavera.
E vi-me ríspido, e vi tua lágrima
silenciosa e contida.
A tempestade de meus gestos
a contrapor-se à brisa
da suavidade dos teus.
E na tentativa de preservar-te
acabei por ser tão rude,
elevei ao altar minha tolice viril.
E o tempo se fez escasso,
e agora as linhas
já estão todas escritas.
Por mais que eu tente
arrancá-las do papel,
estão ali sob a forma
de toscas rasuras.
Quem sabe se rasgasse
o próprio papel...
Mas sobraria sempre a memória.
Talvez fosse possível embebedar-se,
mas depois haveria
a lucidez inevitável.
Então eu me constranjo
com meu tamanho
e a sua delicadeza.
Vejo-me forte e patético,
Assim como são os guerreiros
frente à paz.
Algo entre inútil e fora do tempo.
Há tanto orgulho e,
ao mesmo instante,
tanta vergonha
em pronunciar desculpas.
No entanto, acuso-me
e condeno-me sem piedade.
Finjo erguer muralhas,
quando te quero tão perto.
Tento sufocar minha oculta doçura,
e reinvento-me com
um punhado de asneiras.
Uma completa falta de jeito,
uma desengonçada sobriedade.
O desejo acusa que melhor
seria abraçar ter corpo,
tocar a tua pele com a minha,
sentir o teu calor,
emoldurá-la como cristal,
com minhas mãos.
E com firmeza masculina
segurar sua delicadeza feminil.
Entretanto, falta-me
a coragem dos humildes,
sinto-me vulnerável
na busca da felicidade.
Mais fácil enfrentar o punho agressivo
de outro homem
Do que o olhar afetivo
de uma mulher.
Para um existe o próprio punho
E uma boa dose de estupidez.
Quanto ao olhar da fêmea,
em parte amedronta,
Em parte convida,
e isto cria imobilidade.
É beleza a dominar a força,
pois a força se curva apenas
ao que é belo.
E nesse instante haverá
de encontrar graça naquilo.
O coração baterá em cadência feliz.
E talvez por isso sinto-me
endividado contigo.
E parecendo saber disso,
nada me cobra o que inquieta-me
ainda mais.
Me desatina,
me faz afastá-la,
como que a temê-la,
para depois desejá-la,
almejá-la como o naúfrago
quer a terra.
Te querer tanto
quanto o perdido no deserto
deseja um gole d’água.
Entretanto, mantém-se próxima.
E isso vence a própria distância
por mim instalada,
e me descubro como
meu maior inimigo.
Deixo de me incriminar,
acabando por perdoar
a mim mesmo, sinceramente,
ganhando forças
para lhe pedir perdão.

Gilberto Brandão Marcon
Todos os Direitos Reservados

Áudio:


BAILARINA




Era uma vez que nunca foi,
Num jardim dançava uma ninfa.
Brindava com flores o néctar da vida.
A vida que zombava de si,
Como criança que nada sabe,
Mas que em tudo crê,
Que tudo espera,
que nada nega,
Pois tudo ainda lhe sorri.
No seu delírio, no seu sonho,
Na fantasia sempre inacabada
Do dia que brinca de ser noite,
Da poesia que se finge de melodia,
Encantando a brisa,
se fazendo sopro de vida.
E saindo fugitiva,
mas querendo ser encontrada,
Sorrindo, rindo sem saber
do que e por quê,
Mas tendo o sorriso satisfeito,
pois que a mente está leve,
mas o coração está repleto.



Gilberto Brandão Marcon
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